Bíblia - Código Secreto

N’«O CÓDIGO DA BÍBLIA», DOSNIN, JORNALISTA AMERICANO, NARRA A DESCOBERTA FEITA POR UM MATEMÁTICO ISRAELITA DA CHAVE QUE PÕE A BÍBLIA A CONTAR O FUTURO

Texto deMICHAEL DOSNIN

BÍBLIA não é apenas um livro - é também um programa computacional. Foi originalmente insculpida na pedra e manuscrita num rolo de pergaminho, por fim impressa em forma de livro, à espera da invenção do computador para poder ser compreendida integralmente. Agora pode ser lida como sempre foi pretendido que fosse lida.

Para descobrir o código, Rips teve de eliminar todos os espaços entre as palavras, transformando a Bíblia original num fio contínuo de letras, com a extensão de 304.805 letras.

Ao fazê-lo estava, na verdade, a restaurar a Tora segundo o que os grandes sábios dizem que ela era na sua forma original. De acordo com a tradição, foi assim que Moisés recebeu a Bíblia de Deus - «contígua, sem divisão de palavras».

O computador pesquisa esse fio de letras em busca de nomes, palavras e frases ocultos pelo código de espaços. Começa na primeira letra da Bíblia e procura todas as possíveis sequências - palavras obtidas com intervalos de 1,2,3, e assim sucessivamente, até vários milhares. Depois repete a busca, começando na segunda letra, e assim, sucessivamente, até chagar à última letra da Bíblia.

Depois de encontrar a palavra-chave, o computador pode então procurar informações afins. Frequentemente encontra nomes, datas e lugares correlacionados codificados em conjunto - Rabin, Amir, Telavive, o ano do assassínio, tudo no mesmo lugar.

O computador regista a correspondência entre palavras, fazendo dois testes: o grau de proximidade com que aparecem juntas e se os saltos gerados pelas palavras procuradas são os mais curtos.

Rips explicou como isto funciona, usando a guerra do Golfo como exemplo.

- Pedimos ao computador que procurasse Saddatn Hussein - disse ele. - Então procurámos palavras aparentadas para vermos se apareciam juntas de maneira matematicamente relevante. Com a guerra do Golfo encontrámos «Scuds» com mísseis russos e, codificada com o nome Hussein, a data em que a guerra começaria.

As palavras formavam um quebra-cabeças. De uma forma consistente, o código da Bíblia aproxima entre si palavras interligadas que revelam informações correlativas. Com Bill Clinton, presidente. Com o desembarque na Lua, nave especial e Apollo 11. Com Hitler, nazi. Com Kennedy, Dallas.

Após inúmeras experiências, as palavras cruzadas foram apenas encontradas na Bíblia. Não foram encontradas em Guerra e Paz, nem em qualquer outro livro, nem em 1 O milhões de testes gerados por computador.

Segundo Rips, há uma infinidade de informações codificadas na Bíblia. Sempre que é descoberto um novo nome, palavra ou frase, formam-se novas palavras cruzadas. As palavras afins aparecem na vertical, na horizontal e na diagonal.

Podemos usar o assassínio de Rabin como exemplo. Primeiro, pedimos ao computador para pesquisar na Bíblia o nome «Yitzhak Rabin». Apareceu uma única vez, com uma sequência de intervalos de 4772.

O computador dividiu a Bíblia inteira - o fio completo de 304.805 letras - em 64 filas de 4772 letras. O quadro anterior é um aspecto do centro dessa matriz. No meio da imagem encontra-se o nome «Yitzhak Rabin», com cada letra rodeada por um círculo.

Se «Yitzhak Rabin» fosse revelado por um código de intervalos de 10, então cada fila teria uma extensão de 10 letras. Se fossem 100 intervalos, então as filas teriam uma extensão de 100 letras. E, sempre que as filas são reordenadas, cria-se um novo conjunto de palavras e frases interligadas.

Cada palavra de código determina a maneira como o computador apresenta o texto da Bíblia e as palavras cruzadas que se formam. Há 3000 anos, a Bíblia foi codificada de forma que a descoberta do nome «Rabin» revelasse automaticamente informações correlativas.

Cruzando o nome «Yitzhak Rabin», descobrimos as palavras «assassino assassinará», que aparecem no quadro que se segue, com cada letra metida num quadrado.

As probabilidades de o nome completo de Rabin aparecer juntamente com a profecia do seu assassínio eram apenas de 1 para 3000. Os matemáticos dizem que 1 para 100 já é improvável. O teste mais rigoroso jamais usado é de 1 para 1000.

Voei para Israel, para avisar Rabin, em 1 de Setembro de 1994. Mas só um ano depois de ele ter sido assassinado encontrámos o nome do assassino. «Amir» estava codificado no mesmo lugar que «Yitzhak Rabin» e «assassino que assassinará».

o nome de Amir estava ali há 3000 anos, à espera de ser detectado. Contudo, o código da Bíblia não é uma bola de cristal - não é possível encontrar seja o que for se não se souber o que se procura.

É claro que isto nada tinha a ver com Nostradamus nem com «uma estrela nascerá a oriente e um grande rei será destituído», palavras que poderiam mais tarde ser lidas por forma a significarem fosse o que fosse que na verdade acontecesse.

Pelo contrário, havia pormenores tão precisos como na história noticiada pela CNN: o nome completo de Rabin, o nome do assassino, o ano em que foi assassinado - tudo isto, com excepção de Amir, descoberto antes de ter acontecido.


HOLOCAUSTO
ATÓMICO

O TEXTO corrente, tanto do Antigo como do Novo Testamento, profetiza que a «batalha final» terá início em Israel, com um ataque à Cidade Santa, Jerusalém, acabando por envolver o mundo inteiro.

No Livro do Apocalipse isso surge expresso da seguinte maneira: «Satanás será libertado da prisão e sairá a enganar as nações que se encontram espalhadas pelos quatro cantos da Terra, Gog e Magog, para as ajuntar na batalha. Cercaram o arraial do povo do Senhor e a cidade amada. Mas desceu fogo do céu e devorou-os.»

No código da Bíblia só uma palavra se adapta tanto a «guerra mundial» como a «holocausto atómico» - «Jerusalém».

No dia em que Rabin foi assassinado encontrei as palavras «todo o seu povo à guerra» codificadas na Bíblia. O aviso de guerra total encontrava-se oculto na mesma matriz de código que previa o assassínio.

«Todo o seu povo à guerra» aparecia mesmo por cima de «assassino assassinarás no mesmo sítio que «Yitzhak Rabin».

Apanhei imediatamente um avião de regresso a Israel. O assassínio de Rabin modificou tudo. Foi o primeiro momento em que o código da Bíblia me pareceu totalmente real, o momento em que o que se encontrava codificado se tomou um facto de vida ou de morte. E agora o código avisava que o país inteiro corria perigo.

Enquanto Israel chorava a morte de Rabin, fiquei a trabalhar com Eli Rips na sua casa nos arredores de Jerusalém.

Tentámos descodificar os pormenores do novo vaticínio «todo o seu povo à guerra».

Rips e eu procurámos no código da Bíblia sinais de um conflito catastrófico. Ainda não sabíamos que o código avisava que iria haver um ataque atómico a Jerusalém. Ainda não tínhamos encontrado «guerra mundial».

Porém, na primeira busca do computador encontrámos as palavras «holocausto de Israel». O «holocausto» estava codificado uma vez no versículo do Genesis onde o patriarca Jacob diz aos filhos o que acontecerá a Israel no «fim dos tempos».

- A primeira questão é quando - disse Rips, que verificou imediatamente os cinco anos seguintes, cada ano do resto do século. De súbito empalideceu e mostrou-me os resultados.

O ano hebraico que estava a decorrer, 5756- o final de 1995 e a maior parte de 1996 no calendário moderno -, aparecia no mesmo lugar que o novo «holocausto» vaticinado.

Era um quadro assustador. O ano estava associado a «holocausto de Israel». Tratava-se de uma combinação perfeita. «5756» aparecia no versículo da Bíblia em que se encontrava codificado o «holocausto».

O ano 2000, 5760 do calendário antigo, era também uma boa combinação. Mas o último ano do século parecia distante naquele momento. Na segunda semana de Novembro de 1995, nos dias que se seguiram ao assassínio de Rabin, o facto mais importante foi a nítida modificação do «holocausto» associada ao ano em curso.

- Quais são as probabilidades de isso acontecer por acaso? - perguntei a Rips. 1 em 1000 - respondeu-me.

- Que pode causar um holocausto na Israel moderna? - perguntei-lhe.

- A única coisa que podíamos imaginar era um ataque nuclear. Encontrámo-lo então codificado na Bíblia, uma assustadora afirmação de perigo moderno no antigo texto «holocausto atómico».

«Holocausto atómico» aparecia uma única vez. Três anos dos cinco seguintes estavam codificados no mesmo sítio - 1996, 1997 e o ano 2000. Mas, mais uma vez, o ano que nos prendeu a atenção foi o ano em curso, 5756. «Em 5756» estava codificado logo acima de «holocausto atómico».

- Quais são as probabilidades de isso acontecer duas vezes por acaso? - perguntei.

- 1 em 1.000.000 - respondeu Rips.

Havia indicações de perigo em todo o resto do século e mais para além. Se o código da Bíblia estivesse certo, Israel correria riscos sem precedentes durante, pelo menos, cinco anos.

Mas só um outro ano estava tão claramente codificado com «holocausto atómico» como 1996 - 1945, o ano de Hiroxima.

Debruçámo-nos novamente sobre a frase «todo o seu povo à guerra» que surgia com o assassínio de Rabin. As mesmas palavras - «todo o seu povo à guerra» - estavam também codificadas com «holocausto atómico». De facto, essas palavras apareciam três vezes no texto da Bíblia e estavam codificadas duas vezes com «holocausto atómico».

Rips calculou de novo as probabilidades. Mais uma vez eram inferiores a 1 para 1000.

Perguntei a Rips que probabilidades havia de cada elemento do perigo profetizado - a guerra, o holocausto, o ataque atómico - não estar codificado.

- Não é possível fazer o cálculo - respondeu Rips. Mas é na ordem de um para muitos milhões.

O código da Bíblia parecia profetizar um novo holocausto, a destruição de todo um país. Se eclodisse uma guerra nuclear no Médio Oriente, isso poderia desencadear um conflito global, talvez uma guerra mundial.

E os acontecimentos profetizados estavam de facto a acontecer como haviam sido vaticinados. Um primeiro-ministro estava já morto. Não podia ficar à espera para ver se a próxima profecia também se realiza.

Tínhamos informação que podia ter salvo Rabin, mas que não conseguiu impedir o assassínio. Agora tínhamos informação que podia impedir uma guerra. Em minha opinião, estávamos perante uma situação bizarra. Casualmente, tinha-se-me deparado um código na Bíblia que revelava acontecimentos futuros. Mas não era religioso, não acreditava em Deus e nada daquilo fazia sentido para mim.

Tinha trabalhado como jornalista par o «Washington Post» e o «Wall Street Journal». Tinha escrito um livro baseado em 10. documentos, estava habituado a factos difíceis nas nossas três dimensões. Não era estudioso da Bíblia. Nem sequer falava hebraico, a língua da Bíblia e do código Tinha de aprender tudo isso desde o início.

Mas encontrara o assassínio de Rabin codificado na Bíblia. Praticamente mais ninguém sabia que esse código existia. Só Rips sabia que ele também parecia prever um ataque atómico, um novo holocausto, talvez uma guerra mundial. E ele era matemático, não era jornalista. Não tinha experiência de lidar com figuras proeminentes de governos. Não se mostrara disposto a avisar Rabin. Não estava preparado para informar o novo primeiro-ministro, Shimon Peres.

Os meus instintos de jornalista diziam-me que este novo perigo não podia ser real. Todos os dirigentes árabes tinham comparecido no funeral de Rabin. A paz parecia mais segura do que no final de 1995.

«Todo o seu povo à guerra» parecia uma ameaça muito remota. Não havia uma verdadeira guerra desde que Israel derrotara o Egipto e a Síria em 1973. Não havia qualquer sublevação interna desde que a Intifada terminara com o aperto de mão Rabin-Arafat em 1993. Não havia ataques terroristas dignos de menção desde a criação do Estado moderno depois da Segunda Guerra Mundial.

Um «holocausto atómico» parecia altamente improvável. Uma «guerra mundial» era algo de inacreditável. Mas também nunca acreditara que Rabin fosse assassinado. Só sabia que o seu assassínio estava codificado. E agora Rabin estava morto. Fora assassinado, exactamente como havia sido profetizado, em 5756, o ano hebraico que teve início em Setembro de 1995.

Olhei de novo para as novas folhas impressas. «A próxima guerra» estava codificada uma vez na Bíblia. «Será depois da morte do primeiro-ministro», afirmava o texto oculto. Os nomes «Yitzhak» e «Rabin» estavam codificados no mesmo versículo.

Agora tinha a certeza de que o código da Bíblia revelava o futuro. Continuava, porém, sem saber se cada profecia se realizaria. E também não sabia se o futuro poderia ser alterado.

Estava eu sem conseguir dormir a perguntar-me como poderia ter acesso a Shimon Peres e que iria dizer-lhe quando de súbito me surgiu a resposta para a pergunta principal.

Em hebraico, cada letra do alfabeto é também um número. As datas e os anos podem ser escritos com letras e no código da Bíblia aparecem sempre desta maneira. As mesmas letras que representavam o ano em curso, 5756, também formavam uma pergunta.

As letras que representavam os algarismos 5756, o ano do holocausto vaticinado, também representavam uma frase que era um desafio para todos nós - «Poderá isso ser alterado?»

 

Letras a esmo

PARA entender a arbitrariedade de algumas leituras de O Código da Bíblia, é necessário ter uma ideia de como a Bíblia está escrita no original A escrita do hebraico, tal como a do árabe, apenas retém as consoantes, o que, não oferecendo dificuldade aos falantes, torna impossível a pronúncia a quem não conheça a língua. Para palavras estrangeiras, ou em raros casos que podem provocar confusão, podem ainda usar-se três consoantes, o «aleph», o «yod» e o «waw» (para usar os nomes hebraicos) para «a», «i» e «u». ‘St ‘ psvl, perdão, isto é possível devido à estrutura das línguas semitas: em termos grosseiros, podemos dizer que cada esfera de sentido, amar, comer, falar, por exemplo, é dada por um conjunto de três consoantes, a chamada raiz triliteral, enquanto a função gramatical, amado, comida, falador, é dada pelo esquema vocálico, eventualmente com sufixos ou prefixos. O particípio presente, por exemplo, tem sempre a primeira sílaba em «a» e a segunda em «e». Assim, a raiz para a ideia de falar é D-B-R; «aquele que fala» é MDaBer, em que as vogais indicam o particípio presente e o «M» é um prefixo que indica uma nuance do verbo. Pode parecer complicado, mas qualquer estudante, ao fim de cinco lições, começa a achar normal ler as frases que conhece escritas sem vogais. Se repararmos que «talho» e «telha» têm a mesma sequência de consoantes, vemos a diferença de estrutura entre a nossa língua e as línguas semitas.

Se escrevermos um texto hebraico sem separação de palavras, poderemos sempre isolar um razoável grupo de letras seguidas que formem palavras isoladas - embora já seja mais difícil acontecer a possibilidade de encontrar duas frases completas com sentidos diferentes (algumas dúvidas de leitura de poucas passagens da Bíblia tiveram que ver com isto). Quem diz letras seguidas diz letras igualmente espaçadas: potencialmente, cada conjunto de três letras é portador de sentido, mesmo se nem todas as combinações existem efectivamente na língua.

Ora, o que Rips e Dosnin fazem é precisamente terem reunido as letras igualmente espaçadas que formam o nome que procuram, vão em busca de palavras soltas que se relacionem com esse nome: o único limite é que o intervalo entre as letras seja constante; mesmo assim, conseguem sempre qualquer coisa, como se pode calcular pelo que atrás dissemos

Quando não viram a sequência de letras ao contrários Assim o nome do assassino de Rabin, 'Amir, não está lá: o que está é RYM ‘. Na passagem sobre a extinção dos dinossauros, que referimos noutro local (ver «Antes do Mundo»), encontram a palavra «Rahab», nome de um monstro primordial em Isaías, ao pé de «asteróide»: mas, para isso, tornam a inverter a ordem de leitura. Em qualquer dos casos – e há mais – as outras palavras continuam a ser lidas normalmente, isto é, no caso do hebraico, da direita para a esquerda. As palavras lidas na vertical semelhantemente, tanto o são de baixo para cima como de cima para baixo. Nada no modelo permite predizer os casos em que se deve escolher um ou outro sentido de leitura, o mesmo é dizer que estamos no meio do arbitrário total. Com os nomes estrangeiros, passa-se algo de semelhante: ou se retém apenas a estrutura consonântica, ou se tomam em conta as três consoantes auxiliares de leitura. E que dizer do americanismo de Quem se refere a Los Angeles como La Calif?. A mesma liberdade se toma com as variantes ortográficas do hebraico antigo- nuns casos é YeRuSHaLaYM como YeRuSHaLaiM, quando não a designação metafórica Ariel. Encontram-se no texto as duas ortografias e a metáfora: o problema não é esse, é que nada é predizível pelo modelo, e sem predicatabilidade não há método. nem ciência.

 

A falácia e a prova

Texto de RUI ROCHA

RARAS são as vezes em que as ciências humanas têm ocasião de mostrar o seu rigor próprio face às ciências exactas e à matemática. A vertigem provocado pela leitura de O Código da Bíblia, do jornalista americano Michael Drosnin, provém da nossa fé na verdade matemática. Conta-se que Napoleão, visitando o Observatório, perguntou ao astrónomo Laplace, que lhe explicara o seu sistema astronómico: «E Deus?», ao que o cientista lhe respondera: «Senhor, não tive necessidade dessa hipótese.» O método estatístico desenvolvido pelo matemático Eliyahu Rips que Drosnin apresenta traz a questão inversa: desenha matematicamente o dedo de Deus. A questão de saber de Quem exactamente é o dedo - Deus para Rips, talvez um ET para Drosnin - tomasse irrelevante perante a conclusão directa: a Bíblia é um texto revelado. O método de Rips permitiria assim realizar o sonho de todos os apóstolos: um modo seguro e infalível de saber qual a religião verdadeira. O sistema das letras equidistantes aplicado ao Alcorão não prevê a ascensão da casa de Saud, a queda do Muro ou a viagem de Gagarine? Então é porque o Alcorão não é «revelado». E os Veda? O cânone pali? Por razões ligadas à escrita de cada língua (ver «Letras a esmo»), seria interessante aplicar o método, pelo menos, ao Alcorão. As implicações em termos de fanatismo são assustadoras.

Porque tudo se baseia numa falácia. A prova que Rips, Drosnin e os diversos estatísticos citados apresentam é, à primeira vista, perturbante: as co-ocorrências das palavras detectadas têm uma probabilidade baixíssima de ocorrer por acaso, 1 em 2000, por vezes 1 em 5 milhões, quando o critério de fiabilidade científica se situa habitualmente em 1 /1 000. O curioso é que esta impressionante indicação da presença de uma intenção não quer dizer nada. Absolutamente nada. Por razões específicas de que apresentamos à parte dois exemplos, e por uma razão geral: a probabilidade de acertar no totoloto é de 1 para 13 milhões, segundo dizem os jornais. E, no entanto, há quem ganhe; e, no entanto, ninguém considera isso sinal de uma indicação divina. Num diálogo narrado por Drosnin entre ele e Rips, este explica que não há limite para o número de co-ocorrências, apesar do número finito de caracteres da Tora. E é aqui que se revela a falácia básica, não do método, mas da sua utilização: o chamado «wishful thinking», como quem diz, ir à procura do que se quer encontrar. O problema não é a proximidade entre as palavras «Clinton» e «presidente»; é saber se não estão também próximas palavras como «servo» e «Satã», numa agradável confirmação da opinião iraniana sobre a América, ou se as palavras «santo» e «Deus» não andarão por perto do nome de Amir, o assassino de Rabin. É que ' dada a estrutura da escrita hebraica, e as liberdades que com ela são tomadas, a escolha das palavras significativas é totalmente dependente da intenção de sentido daquele que as procura. A probabilidade da co-ocorrência pode ser medida depois, mas o método não permite definir previamente quais as escolhas a reter e quais a eliminar: isto é, não há maneira de determinar as sequências de letras relevantes se não se souber hebraico, como quem diz, se o sentido não preexistir à descoberta. Em resumo: não há método algum e, contra isto, não existe probabilidade estatística que valha.

E quando, nas págs. 176/177, o autor nos apresenta primeiro a profeciado holocausto nuclear, depois a ocorrência da pergunta «Poderá isso ser alterado?» e, em segunda ocorrência, a resposta «Isso pode ser alterado», a conclusão descomprometida só pode ser uma: as três frases em conjunto anulam-se umas às outras, isto não quer dizer nada. Em vez de passar de jornalista a estatístico, Michael Drosnin teria feito bem em tirar um curso básico de epistemologia.

(Michael Dosnin, O Código da Bíblia, Gradiva, 1997,264 págs.)

 

UM DOS MAIS curiosos pormenores do Código da Bíblia é a datação usada. Mais curioso ainda é que os autores achem normalíssimo que um código que prevê tudo, desde o início à consumação dos tempos, use a era hebraica, também conhecida por «annomundi», ou ano do Mundo: obtém-se somando 3760 anos à era cristã, a que se usa no Ocidente, e provém de eruditos e tardios cálculos feitos por doutores da Lei, já depois da destruição do Terceiro Templo, que a partir da duração das gerações indicados na Bíblia procuraram a data da Criação. Nos tempos bíblicos, aliás, não existia pretensão de cronologia absoluta e usavam o ano ordinal da subida ao trono do soberano, embora se note no Livro de Reis, anterior ao exílio da Babilónia, a tentativa de criar uma datação a partir da fuga do Egipto (embora com uma base puramente convencional, pois tinham já perdido a memória dos séculos passados).

Mas não há, aparentemente, dúvidas: para o misterioso Codificador, a data que vale é a da criação do Mundo, 3760 anos antes da Encarnação de Cristo (que não foi no ano 1, diga-se de passagem). Fica-nos uma terrível dúvida: como os navegadores do Código encontraram também a indicação de que os dinossauros tinham sido destruídos por um asteróide, e sabendo-se que os bichos desapareceram há cerca de 60 milhões de anos, como é que é a data correspondente: 59 milhões Antes do Mundo?


Por outro lado convém notar que as letras em hebraico têm valor numérico, segundo a sucessão alfabética, as primeiras nove de 1 a 9, as nove seguintes de 10 a 90, as quatro restantes de 100 a 400 (usando-se algumas variantes na forma de certas letras para chegar a 900). Qualquer palavra é, pois, também um número; e qualquer número, uma palavra. E aqui tanto é lido da direita para esquerda, como da esquerda para a direita, de cima para baixo, ou de baixo para cima.

A tradicional Cabala é muito mais séria. As regras de substituição e permutação de letras são claramente definidas. O campo de aplicação das equivalências numéricas está claramente delimitado. Existem parâmetros formais de controlo. O que é mais grave nisto tudo é que não parece tratar-se de vigarice voluntária, mas sim de um genuíno convencimento, que só pode sair da mais completa impreparação intelectual. Rips será um grande estatístico e um indiscutível fanático: ignora é tudo de epistemologia e está completamente afastado da tradição viva da religião que professa - ou perceberia imediatamente o dislate formal do seu «código», em vez de ilustrar penosamente essa mistura de tecnologia moderna com ignorância teológica e cegueira espiritual que encontramos na prática dos fundamentalismos modernos. E Dosnin escusava de ilustrar tão descaradamente os piores estereótipos (injustos, como todos) sobre o nível cultural americano